Convites à Publicação

Convites à Publicação

A revista TRANSLOCAL. Culturas Contemporâneas Locais e Urbanas procura explorar e discutir a possibilidade da transcendência do(s) lugar(es), físico(s) e virtual(is), entendendo-o(s) como espaço(s)/tempo(s) expandido(s), onde local e global surgem como realidades implicadas e dinâmicas. Analisará, com particular atenção, não só os processos geopolíticos, sociais, históricos e culturais de en-contro local e urbano, como também as diversas formas de expressão artística resultantes desses fenómenos, entendendo que estes, na contemporaneidade e seja na cidade do Funchal ou seja em outras coordenadas, sempre implicam quer o desenvolvimento de laços de identificação local, quer a construção de ligações de pertença a diversas redes externas, situáveis para além-do-local.

A TRANSLOCAL edita em formato impresso em papel, um número anual temático, com registo ISSN autónomo da edição online [ISSN 2184-1047], que reunirá trabalhos inéditos e subordinados a uma temática específica, identificada nos respetivos convites à publicação (ver abaixo).

Cada número anual da TRANSLOCAL acolherá com interesse propostas para publicação em três secções da revista:

  • Ensaios
    • escritos
    • visuais
  • Artigos
  • Sugestões de Leitura (sob a forma de efetivas recensões críticas ou, em registo mais livre, sob a forma de apontamentos/recomendações de leitura sobre publicações manifestamente relevantes para o entendimento e o debate acerca das culturas contemporâneas locais e urbanas)

As propostas submetidas deverão respeitar as normas de edição da revista (ver aqui) e ser enviadas para o contacto eletrónico oficial da revista, dentro dos prazos definidos em cada convite à publicação:  translocal.revista@mail.uma.pt.

Todos os textos publicados serão objeto de avaliação de acordo com o modelo internacional  double blind peer review.

n.º 3 | CINEMA(S) PERIFÉRICO(S) (2020)
data limite para envio de propostas:  31 de janeiro de 2020   15 de fevereiro de 2021                                              Cfp        
Coordenadora Convidada: Maria do Carmo Piçarra
Coordenadora TRANSLOCAL: Ana Salgueiro
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Fenómeno cultural gerado no contexto de uma modernidade urbana, cosmopolita e escopofílica, em que a invenção de novos aparelhos e técnicas de registo e de projeção de imagens se cruzava ora com o experimentalismo estético e criativo, ora com o interesse jornalístico, científico e artístico na documentação da realidade, o cinema assumiu um protagonismo axial naquilo que Michel de Certeau (1990) designou como a invenção do quotidiano. Determinante para a cristalização desse regime visual simultaneamente eufórico e fóbico, transgressivo e esclarecedor, como a ele se referiu Isabel Capeloa Gil (2007), o cinema contribuiu decisivamente para a reconfiguração das sociedades contemporâneas, para a definição das suas fronteiras e para a hierarquização dos seus sistemas ecossocioculturais, ao potenciar a circulação, a transferência e a reimaginação dos valores e dinâmicas sociais, culturais, políticas e económicas que organizaram o tecido urbano a partir do final do século XIX.

Este relevo não invalidou, porém, que o cinema ocupasse também uma certa periferalidade nos sistemas culturais, artísticos e científicos. Tal sucedeu tanto pelo seu carácter impuro e, por vezes, massificado(r), frequentemente oscilante entre a comercialização do entretenimento e da informação, e a propaganda ideológica; como pelo seu discurso híbrido e pelo gesto radical da vanguarda cinematográfica, verificado tanto ao nível da experimentação criativa na conceção da linguagem fílmica, quanto ao nível das imagens de mundo selecionadas e disseminadas, ousando dar voz a uma pluralidade de narrativas oculta(da)s nas representações dominantes dessas e nessas sociedades, ou tornando visíveis formas alternativas de as pensar, de nelas agir e de as reconstruir de forma menos hegemónica.

Produto e produtor do mundo urbano contemporâneo, nessa oscilação entre fenómeno cultural de massas e fenómeno cultural periférico ou de vanguarda, o cinema integrou na sua própria classificação taxonómica essa dualidade tipológica, na verdade bem mais volúvel e complexa do que a dicotomia pode sugerir.

Cinema periférico é uma das designações usadas para referir a produção de filmes à margem de Hollywood. Desde que (e superando a primazia inicial do cinema francês) o cinema norte-americano, através de um modelo de produção, distribuição e exibição, se tornou hegemónico em quase todo o mundo, as cinematografias de outros países e regiões foram consideradas – e assim designadas – como periféricas, em relação com esse suposto centro, que não só é um centro imaginário como impôs um sistema de representação. A implicação mais evidente dessa hegemonia foi sublinhada por Guy Hennebelle no texto seminal Os Cinemas Nacionais Contra Hollywood (1978), ao citar Glauber Rocha e Jean-Luc Godard quando estes denunciam como, através dos filmes, se impôs uma padronização da sociedade que assenta num modelo norte-americano e que distorce a realidade e a diversidade mundial. Essa constatação gerou um espaço de resistência identitária, que se aplica não apenas à produção dos filmes, mas inclui a reflexão sobre o imaginário por eles proposto.

Em alternativa ao uso da expressão cinema periférico – ou da sua declinação no plural –, o cinema produzido fora de Hollywood tem sido perspetivado usando a categoria cinema do mundo (world cinema), que Lúcia Nagib tem pensado a partir de considerações sobre o realismo cinematográfico, propondo alternativamente a designação cinema realista, sobretudo no recém-publicado Realist cinema as world cinema (2020).

Na linha de pensamento sobre um cinema do mundo contraposto ao cinema de Hollywood, inclui-se a reflexão sobre os cinemas nacionais, sobretudo para enquadrar e analisar a intensificação da produção europeia, do Médio Oriente, de parte da Ásia e América Latina no final do século XX, importando aqui realçar o contributo de Jean-Michel Frodon (1998) para pensar como as nações se projetaram (ou não) através das suas cinematografias. Porém, este paradigma é de alcance limitado para considerar quer a diversidade do cinema feito à margem de Hollywood quer os filmes feitos como coprodução de vários países.

Refira-se ainda o conceito accented cinema, proposto por Hamid Nacify para enquadrar o cinema feito por indivíduos e grupos com experiências e práticas culturais não ocidentais, e a sua fecundidade para pensar representações filmadas alternativas. A arqueologia do surgimento deste conceito de cinema periférico remete inevitavelmente para a definição de terceiro cinema, proposta pelos realizadores argentinos Octavio Getino e Fernando Solanas, e inclui práticas integradas que incluem a estética da fome (Glauber Rocha, 1965) e outras de cinema de urgência.

Promovendo uma reflexão sobre o lugar do cinema nos sistemas ecossocioculturais contemporâneos, dando especial atenção ao cinema não hegemónico, feito em diversas periferias (geopolíticas, mas também socioeconómicas, estéticas e disciplinares) – periferias aqui consideradas a partir do modelo centro-periferia pensado pelo economista Samir Amin (1974) –, o n.º 3 anual da revista TRANSLOCAL. Culturas Contemporâneas Locais e Urbanas, subordinado ao tema “Cinema(s) Periférico(s)”, convida à publicação em três das suas secções: Ensaios; Artigos; e Sugestões de Leitura/Recensões.

Acolher-se-ão com interesse propostas de ensaios escritos e de artigos (entre 2500 e 5000 palavras), ensaios visuais (até 5 imagens + texto complementar, entre 500 e 1000 palavras), e recensões críticas (entre 1000/2000 palavras), que, ocupando-se do tema “Cinema(s) Periférico(s)”, abordem (não exclusivamente) tópicos como:

  • Cinema, saber e poder:
    • hegemonias e periferalidades;
    • propaganda e resistência;
    • colonialismo e pós-colonialismo;
  • Cinema e cartografia do mundo:
    • narrativas e imagens de mundos silenciados e invisíveis no cinema de arte, no cinema científico e no cinema jornalístico;
    • representação cinematográfica denotativa e não denotativa (Nelson Goodman): documentarismo, ficção, ensaio e poesia cinematográficos;
    • marketing turístico e exoticização cinematográfica do local e da cidade;
  • Genealogia e reflexão teórico-conceptual: cinema mainstream, cinema periférico, cinema popular, cinema nacional, cinema do mundo, terceiro cinema (Angela Prysthon), estética da fome, cinema/estética de urgência, Cinema realista (Lúcia Nagib) …
  • Trânsitos e transferências cinematográficos:
    • circulação e indústria cinematográfica: a produção do ‘local’, do ‘global’ e do ‘translocal’
    • tradução intersemiótica: cinema ←→ outras artes;
  • Lugares, edifícios e dispositivos cinematográficos:
    • arquitetura e urbanismo;
    • tecnologia e novos media;
  • Periferias do fenómeno cinematográfico:
    • cinematografias e cineastas esquecidos;
    • o cinema para além do filme, da ação, dos atores e do realizador: cruzamento interartes, encontro transdisciplinar e processo de criação coletiva.

As propostas para publicação serão avaliadas de acordo com os critérios internacionais de dupla avaliação cega por pares, e serão aceites trabalhos em Português e em Inglês, com manifesta qualidade, que contribuam  para a reflexão proposta  com o tema de capa do n.º3 da TRANSLOCAL e que respeitem as normas de edição adotadas pela revista e aqui disponibilizadas.  Os textos redigidos em Português poderão seguir ou não a norma do Acordo Ortográfico de 1990, devendo o autor declarar a opção seguida, em nota.

Por se tratar de uma revista publicada no Funchal, acolher-se-ão com interesse propostas que considerem a produção de cinema na e sobre a Madeira, e relativa à realização cinematográfica por autores madeirenses.

As propostas (texto completo e eventuais imagens) deverão ser enviadas até 15 de Fevereiro de 2021, para a coordenação da revista (translocal.revista@mail.uma.pt), incluindo também os seguintes elementos:

  •  um resumo da proposta de texto submetida, em português e em inglês (até 200 palavras);
  •  nome do(s) autor(es) e uma breve nota curricular (até 100 palavras).

Até 30 de Março de 2021, a coordenação da revista informará os autores das propostas que forem aceites e, após a conclusão do processo de revisões finais e paginação, a revista será publicada ainda no primeiro semestre de 2021.

n.º 2 | MODERNIDADES (2019)
data limite para envio de propostas: 15 de outubro de 2019                                                                                                                            Cfp  
Coordenadoras Convidadas: Ana Isabel Moniz e Leonor Martins Coelho
Coordenadora TRANSLOCAL: Ana Salgueiro
 

Modernity, of course, has no single meaning, not even in one location […]. Globally and locally, modernity appears infinitely expandable […] a Tower of Babel with too many levels to climb […]: vertigo out on a limb, whirld up into a vortex of the new. Yet I also rejoice. Change is what drew me to modernismo in the beginning. Why should it ossify? Why should the fluid freeze over, the undecidable become decided?

Susan Stanford Friedman, Planetary modernism. Provocations on modernity across time, p. 49

Em março de 1915 era publicado, em Lisboa, o n.º 1 de Orpheu. Revista Trimestral de Literatura, um periódico cujo foco de interesse ultrapassaria em muito o da criação literária. Buscando o novo e o moderno, Orpheu (e muitas outras publicações periódicas suas sucedâneas) pretendia romper com os valores e as práticas culturais dominantes no sistema cultural português. O chamado I Modernismo desenvolvia-se, assim, num contexto político e cultural ambivalente. Se Lisboa era, por um lado, capital de um ‘império colonial’ e do sistema cultural nacional, por outro, era uma cidade marginal em relação a Paris e às principais metrópoles europeias.

Tal como a Lisboa de 1916, também outras localidades e cidades mais pequenas (europeias e de outros continentes) assumem um carácter paradoxal. Por um lado, são percecionadas como periferias em relação às grandes metrópoles ocidentais, sem contudo deixarem de ser centros de referência afetiva, cultural e identitária para quem nelas nasceu e/ou as habita. Por outro lado, enquanto espaços de trânsitos e de en-contros tantas vezes inusitados, essas localidades e cidades da província ou até dos impérios são/foram também realidades socioculturais e políticas marcadas pela transgressão e, nessa medida, espaços de inovação e (re)criatividade.

Deslocando o foco da atenção académica para espaços, fenómenos culturais, sujeitos e/ou perspetivas epistemológicas e criativas considerados periféricos, o n.º 2 da edição anual e impressa da revista TRANSLOCAL. Culturas Contemporâneas Locais e Urbanas, subordinado ao tema “Modernidades”, desafia à reflexão sobre o mapa dos modernismos e das modernidades. Um mapa que, como lembra Susan Stanford Friedman (2012), na nossa contemporaneidade, exige uma revisão. Não podendo deixar de dar atenção aos centros metropolitanos ocidentais, essa nova cartografia das modernidades deverá também (re)ver a densidade cultural, epistemológica e re-criativa de outros locais e cidades (assim como de áreas/fenómenos marginais situadas nas grandes metrópoles), interrogando-se sobre as modernidades e os modernismos que aí se construíram. De acordo com Terry Eagleton (1970) e Osvaldo Silvestre (2008), o alto modernismo europeu foi protagonizado por “gente da província em migração para as grandes capitais da Europa, as quais segregarão por isso uma cultura da internacionalização e da desfamiliarização” (Silvestre, 2008).

Mas o que terá acontecido em sentido inverso, i. e., dos centros metropolitanos para as suas periferias? Como foram experienciadas as vanguardas do início do século XX e outros modernismos e modernidades em espaços geopolíticos e culturais considerados periféricos? Como responderam as sociedades e os sujeitos locais (europeus e coloniais) ao novo proposto pelos modernismos dominantes nas grandes cidades ocidentais? Essas outras localidades e cidades da província ou do império terão sido um absoluto vazio cultural, destituído de sujeitos capazes de dialogar criticamente com esses modernismos e essas múltiplas modernidades? Poderão as margens ter produzido, localmente, um discurso próprio sobre as ideias e fenómenos culturais criados e discutidos nos centros de maior gravitação artística, social e política? Que papel tem sido atribuído aos espaços geoculturais periféricos e/ou a abordagens com enfoque local, na construção da narrativa sobre os vários modernismos e as diversas modernidades?

Assim, no ano em que se assinala o centenário do segundo trânsito da Madeira para Paris (1919) de três artistas plásticos funchalenses – Henrique Franco, Alfredo Miguéis e Francisco Franco-, uma deslocação e uma estada intermitente que, segundo Carlos Valente (2015), viriam a ser decisivas para a realização, no Funchal de 1922, da pioneira exposição internacional de arte moderna – a exposição do “Grupo dos Seis” -, o n.º 2 | Modernidades da revista TRANSLOCAL. Culturas Contemporâneas Locais e Urbanas convida à publicação em três das suas secções:

  1. Ensaios;
  2. Artigos;
  3. Sugestões de Leitura/Recensões.

As propostas para publicação serão avaliadas pela Comissão de Leitura deste número e deverão contribuir quer para a reflexão sobre o(s) conceito(s) de Modernidade, quer para a análise crítica dos fenómenos geopolíticos, sociais, económicos, geofísicos, biológicos, culturais, artísticos, psicológicos e afetivos que esses conceitos podem referir, quer ainda para a discussão dos problemas que esses fenómenos e experiências implicam.

Os casos de estudo tomados como objeto de análise e discussão poderão reportar-se tanto à cidade e às culturas do Funchal (aqui também entendido como Funchal-expandido) ou de outras localidades da Madeira, quanto a outras cidades e a outros locais.

Acolher-se-ão com interesse, propostas quer de ensaios escritos e de artigos (entre 2500 e 5000 palavras), quer de ensaios visuais (até 5 imagens + texto complementar, entre 500 e 1000 palavras), quer de recensões críticas (entre 1000/2000 palavras), redigidas em português, inglês ou francês, que, ocupando-se do tema “Modernidades”, abordem (não exclusivamente) tópicos como:

  1. Modernidades metropolitanas e modernidades locais e periféricas: dicotomias e/ou implicações? Perspetivas multidisciplinares;
  2. A marginalidade em agentes e fenómenos culturais dos séculos XX e XXI;
  3. Os media na difusão, legitimação e questionação de valores e discursos modernos;
  4. O Museu, o Arquivo, a Biblioteca, a Atividade Editorial, a Escola: o seu papel na revis(itaç)ão dos modernismos e das modernidades;
  5. Mobilidades modernas: tradução, modalizações culturais e transculturalidade;
  6. Natureza, arte, tecnologia e ciência: construção de saberes modernos; (re)criação; relação humana com o contexto eco-sociocultural;
  7. Repensar a polis e o espaço urbano modernos;
  8. Sujeito moderno: crise e psicanálise.

As propostas de ensaios e de artigos deverão ser enviadas até 15 de outubro de 2019, para a coordenação da revista (translocal.revista@mail.uma.pt), incluindo também os seguintes elementos:

  • um resumo da proposta de texto submetida, em português e em inglês (até 200 palavras);
  • nome do(s) autor(es) e uma breve nota curricular (até 100 palavras).

Acolher-se-ão igualmente com interesse recensões críticas de livros que, provenientes de várias áreas académicas, culturais e artísticas, abordem questões relacionadas quer com os conceitos, fenómenos e experiências das modernidades, quer com as problemáticas que desses fenómenos e experiências decorrem. As propostas de recensões críticas deverão ser submetidas para o mesmo e-mail, até 15 de outubro de 2019.

Até 30 de outubro de 2019, a coordenação da revista informará os autores das propostas que forem aceites, procedendo-se depois ao processo de paginação e revisão dos textos selecionados para publicação.

n.º 1 | (TRANS)LOCALIDADE & CULTURAS URBANAS (2017/2018)

Data limite para submissão de propostas: 10 de Novembro de 2017 

Coordenadores:  Ana Salgueiro e Duarte Santo

 

“Translocality draws attention to multiplying forms of mobility without losing sight of the importance of localities in people’s lives”
Oakes and Schein, Translocal China, Linkages, Identities and the Reimagining  of Space

“A passagem da “cidade para o urbano” arrastou uma metamorfose profunda da cidade: […]
que passou a centrífuga; […] a uma geografia desconfinada[…] difusa e fragmentada;[…]
passou a ser um transgénico que assimila e reprocessa elementos […], passou a sistema
de vários centros; de ponto num mapa, passou a mancha”
Álvaro Domingues, “A Rua da Estrada”

Refletir, hoje, quer sobre o que é o translocal e a translocalidade, quer sobre o que é a cidade e o urbano (e respetivas culturas), implca colocar estes conceitos, fenómenos e experiências em correlação com outros que lhes são alternativos ou complementares: por um lado, local/localidade/localismo, região/regionalidade/regionalismo, nação/nacionalidade/nacionalismo, globalização e cosmopolitismo; e por outro lado, campo/rural/ruralidade.

O caráter catastrófico, fragmentário e palimpséstico que Walter Benjamin (2003) identificou na experiência da temporalidade moderna, a liquidez que Zygmunt Bauman (2012) diagnosticou na modernidade tardia, ou a reflexividade crítica que Ulrich Beck (1994) também apontou no contemporâneo deixavam de se compaginar, no final do século XX, com conceções exclusivamente lineares e progressistas de tempo, com perspetivas deterministas e meramente materiais do espaço (Lefebvre, 1991; Massey, 2005; Harvey, 2009), ou até com paradigmas estanques e estáticos de fenómenos como a fronteira ou a comunidade (Agamben, 1993; Nancy, 2000).

A cidade e o urbano,  pensados e experienciados como lugares-tempos expandidos e instáveis, apresentavam-se como uma tessitura física, social, política e cultural fragmentária, mas densa, contaminada e em turbulenta metamorfose (Crang, 2000). Surgiam como unidades orgânicas, tensionais e não-homogéneas, onde o limiar com o rural e com o estrangeiro se dissolvia e onde diversas temporalidades se cruzavam, numa trama que era permeável ao estranho, à diferença e ao novo, mas que, simultaneamente, também se definia como corpo autofágico que se vai nutrindo das ruínas do passado, para, de forma complexa e por vezes caótica, se reinventar quotidianamente (Domingues, 2010).  Cidade e urbano configuravam-se então (como hoje) como palimpsestos e arquipélagos transfronteiriços, marcados por dinâmicas que ultrapassavam o local; como sistemas rizomáticos, cuja fluidez encontrava pontos de ancoragem e cristalização que se estendiam para além das clássicas muralhas físicas da cidade e para além das normas que aí foram sendo dominantes.

A par com esse entendimento do que era/é a cidade e o urbano, também translocalidade e translocal surgiam, nesse mesmo período, como renovação conceptual desses outros termos que lhes são tangenciais. Sujeitos à usura do tempo e à alteração fenomenológica, histórica e contextual, local/localidade/localismo, enquanto conceitos operativos, tornavam-se limitadores quer na reflexão sobre os sistemas ecossocioculturais modernos, quer na construção de respostas para as interrogações e para os desafios que a contemporaneidade colocava. Por um lado,  a vaga crescente dos processos de mobilidade humana e cultural era intensificada com o desenvolvimento tecnológico, com o aparecimento de novos media e (com estes) de renovadas modalidades de comunicação e de relação interpessoal, intercultural e económica, agora também marcadas pelo virtual, pela simultaneidade transfronteiriça e por experiências mais complexas de espaço/tempo (Beck, 2007; Greenblatt, 2010). Por outro lado, o paradigma oitocentista do Estado-Nação (tantas vezes reproduzido, a uma escala menor, no paradigma da Região) esgotava-se (Sousa Santos, 1999), exigindo a reequação dos processos de identificação política e geocultural, das narrativas identitárias e das relações de pertença comunitária (Agamben, 1993; Nancy, 2000). Simultaneamente, a tendência hegemónica da globalização, a vertigem do desenraizamento cosmopolita e esses novos entendimentos de espaço/tempo potenciavam uma profunda desestabilização e pulverização das narrativas identitárias.

Deste modo, translocal e translocalidade questionavam e desconstruiam a dicotomização radical e acrítica que, não raras vezes, se estabelecia quer entre o que era local e nacional, quer entre o que era local e global ou cosmopolita (Greiner e Sakdapolrak, 2013). Passavam a reportar-se a fenómenos e experiências culturais, sociais, políticos, históricos, económicos, artísticos ou até biológicos, geofísicos, psicológicos e afetivos implicados em dinâmicas, mais ou menos transgressivas, de trânsito, de flutuação, de transferência e de metamorfose, fosse de sujeitos, valores, substâncias e imaginários, fosse de bens e produtos. Contudo, esses fenómenos e experiências nem por isso decorriam de uma desterritorialização absoluta, ou de um radical desenraizamento temporal que os projetassem para fora de um aqui-agora.  O prefixo trans- inscrevia (e subscreve ainda hoje) o caráter dinâmico, transformativo, relacional e transgressivo dessa modalidade contemporânea de experienciar e pensar o local. Locus, na raiz etimológica de local, sublinhava, por seu turno, que essa flutuação ou deriva, tal como a (con)fusão de fronteiras delas decorrentes não se esgotavam em si mesmas.

Neste quadro, regressar ao local, para o repensar criticamente, agora numa articulação de diversas escalas e tempos que nele se cruzam, surgia como tentativa de resposta àqueles abalos, exigindo, no entanto, uma outra conceptualização, que ultrapassasse o confinamento das fronteiras do local a um enraizamento estático, físico e geográfico (Appadurai, 2003: 178).

Como notam Katherine  Brickel e Ayone Datta (2011: 3-4), na senda de autores como Appadurai, translocal e translocalidade designam fenómenos e experiências “place-based rather than exclusively mobile, uprooted or ‘travelling’”. Enquanto lugares expandidos, resultantes do encontro e negociação entre vários locais-tempos, a existência desses fenómenos e experiências produz-se localmente (Appadurai, 2003:178).

Assim, o número inaugural da revista TRANSLOCAL. Culturas Contemporâneas Locais e Urbanas, abre o convite à publicação em três  das suas secções:

  1. Ensaios (escritos e visuais)
  2. Artigos
  3. Sugestões de Leitura (Recensões Críticas)

As propostas para publicação serão avaliadas pela Comissão de Leitura da revista e deverão contribuir quer para a reflexão sobre os conceitos de (trans)localidade e culturas urbanas, quer para a análise crítica dos fenómenos geopolíticos, sociais, económicos, geofísicos, biológicos, culturais, artísticos, psicológicos e afetivos que esses conceitos podem referir, quer ainda para a discussão dos problemas que esses fenómenos e experiências implicam.

Os casos de estudo tomados como objeto de análise e discussão poderão reportar-se tanto à cidade e às culturas urbanas do Funchal (aqui também entendido como Funchal-expandido), quanto a outras cidades e a outros locais marcados pela translocalidade.

Acolher-se-ão com interesse, propostas quer de ensaios escritos e de artigos (entre 2500 e 5000 palavras), quer de ensaios visuais (até 5 imagens + texto complementar, entre 500 e 1000 palavras), quer de recensões críticas (entre 1000/2000 palavras), redigidas em português ou inglês, que, ocupando-se do tema “(Trans)Localidade e Culturas Urbanas”, abordem (não exclusivamente) tópicos como:

  • o local, o urbano e a cidade como lugares-tempos expandidos, como palimpsestos e/ou arquipélagos transfronteiriço: questões de identidade e património;
  • mobilidade humana e cultural: movimentações centrífugas e/ou centrípetas, entre a vertigem do trânsito e a pulverização de enraizamentos locais;
  • desloca(liza)ções, conflito e poder;
  • a plasticidade dos territórios locais e urbanos:
    • processos de coprodução espacial (dinâmicas top-down e bottom up);
    • sustentabilidade ecológica, (des)ordenamento territorial, riscos, resiliência;
  • paisagens locais e urbanas como fenómenos metamórficos e como territórios híbridos: conservação, subversão, (re)criação;
  • a complexidade babélica do (trans)local e do urbano contemporâneos:
    • a questão do encontro e da variação linguísticos;
    • a questão da (in)traduzibilidade linguística, social, cultural e artística;
  • a (re)imaginação do local e/ou da cidade: narrativas e representações literárias e fílmicas;
  • discursos artísticos contemporâneos, site-specificity, transgressão e deslocalizações (re)criativas;
  • turismo e a reinvenção do local e/ou do urbano: do virtual à experiência empírica; processos de turistificação

As propostas de ensaios e de artigos deverão ser enviadas até 10 de novembro de 2017, para a coordenação da revista  (translocal.revista@mail.uma.pt), incluindo também os seguintes elementos:

  • um resumo da proposta de texto submetida, em português e em inglês (até 200 palavras);
  • nome do(s) autor(es) e uma breve nota curricular (até 100 palavras).

O n.º 1 de TRANSLOCAL. Culturas Contemporâneas Locais e Urbanas publicará uma bibliografia de referência sobre o seu tema de capa. Neste sentido, acolher-se-ão com interesse recensões críticas de livros que, provenientes de várias áreas académicas, culturais e artísticas, abordem questões relacionadas quer com os conceitos, fenómenos e experiências da translocalidade e das culturas urbanas, quer com as problemáticas que desses fenómenos e experiências decorrem.

As propostas de recensões críticas deverão ser submetidas  para o mesmo e-mail, até 10 de novembro de 2017.

Até 30 de Novembro de 2017 a coordenação da revista informará os autores das propostas que forem aceites, procedendo depois ao processo de edição e dos textos seleccionados para publicação.